sexta-feira, 28 de novembro de 2014

É preciso posicionar TI como negócio, postura que também cabe aos CIOs



Autor: Cezar Taurion

Os eventos com CIOs são excelente oportunidade de entender os desafios e problemas que estes executivos enfrentam. As conversas geralmente fluem soltas e abertas. Curioso é ouvir com frequência frases como “ TI e o negócio” – o que me soa estranho, como se fosse uma percepção de nós, TI e eles, o negócio. Não ouvimos falar de “vendas e o negócio”. Então por que TI é visto de forma separada do negócio, sempre sendo necessário enfatizar “TI e o negócio”?

Também observo que são raríssimos os CIOs que ascendem ao topo da organização. Quase não vejo CEOs oriundos de TI, mas sim de outras áreas como vendas, finanças, operações etc… Mas não de TI.

Pensando um pouco sobre o assunto, observamos que embora de alguma forma a TI e o CIO se envolvem com todo o negócio (pense na implementação de um ERP, que transversa toda a organização), TI é vista de forma separada e periférica. Com certeza parte do problema decorre do fato que os CEOs e demais executivos não entendem direito o que TI realmente faz. Mas, creio que parte substancial é responsabilidade do próprio CIO, que se coloca à margem do negócio. Difícil ver CIOs participando de eventos de negócios. Em um recente evento patrocinado por um jornal econômico sobre os futuros da economia nos próximos anos, não vi na lista de presença nenhum CIO.

Outro contexto comum é ver os CIOs passando a maior parte de seu tempo com sua equipe técnica ou com seus fornecedores de tecnologia discutindo detalhes tecnológicos e uma parcela mínima de seu tempo com seus pares das outras áreas de negócio, debatendo perspectivas do negócio. O próprio jargão especializado cria barreiras de comunicação.

Um CIO me confessou que estava decepcionado porque sua proposta de implementar um modelo de governança de TI não encontrava eco na equipe executiva. Da conversa ficou claro que na verdade a proposta acabava passando um percepção de burocracia e lentidão e não deixava claro que benefícios agregaria para o negócio. Nitidamente um foco excessivamente centrado na tecnologia e nos meandros da TI, que não interessam a um CEO.

Outro ponto que me chama atenção é que a maioria das equipes de TI são constituídas de profissionais muito centrados na tecnologia, com pouca intimidade com o negócio. Muitas vezes, os processos de governança implementados em TI incentivam estas barreiras pois filtram os contatos entre o negócio e a TI, deixando a equipe de TI muito voltada para dentro de seu feudo. Uma sugestão aqui é criar mecanismo que favoreçam embutir a equipe técnica no negócio em si, aumentar seu conhecimento das especificidades das demandas do negócio e incentivar nas comunicações com os usuários uma linguagem menos técnica.

Um outro desafio para os CIOs é o fenômeno da consumerização da tecnologia. A tecnologia disponível lá fora, smartphones e tablets com apps sofisticados e intuitivos, fáceis de serem baixados, torna a vida dentro da empresa quase que uma volta ao passado. Um CIO me disse que seu presidente comentou que “ao entrar na empresa, se sentia voltando ao passado, pois não encontrava nos sistemas corporativos as facilidades e intuitividade que os apps que ele usa no seu dia a dia”. Surge um paradoxo interessante, pois quanto mais os usuários se tornam íntimos e gostam da tecnologia, mais eles reclamam da TI tradicional. Na verdade, este fenômeno não é novidade, pois começou com o surgimento dos PCs e a reação negativa de muitos CIOs que viam falhas de segurança em todo canto com seu uso. Com o tempo, resolvemos os problemas e todas as empresas usam PCs e laptops. Com os smartphones, tablets e a facilidade de se obter apps, o processo cresceu exponencialmente. Hoje o primeiro lugar onde as novidades tecnológicas são usadas são nas casas e no dia a dia dos usuários e só depois é que chegam às empresas. Claramente este descompasso é um motivo de insatisfação.

O que fazer? É um desafio e tanto, pois ao mesmo tempo que deve manter os sistemas legados operando sem problemas, os CIOs e a TI devem adotar inovações tecnológicas em ritmo cada vez mais rápidos. Tentar preservar o tradicional paradigma de controlar a entrada de tecnologias na empresa, com as homologações feitas anteriormente, é uma luta inglória. Os CIOs que tentam preservar este status quo já perderam a luta. Como disse a um CIO, “cloud computing é tudo aquilo que seus usuários já usam e você não sabia (ainda!)”. O vetor resultante desta tentativa de preservar o controle é o “shadow IT”, aquelas tecnologias que entram nas empresas ao largo da TI tradicional. E provavelmente é muito, mas muito maior que os CIOs acreditam que seja nas suas organizações. Isto comprovei em um assessment em uma organização. Identifiquei uma grande parcela dos usuários usando apps e nuvens para atividades profissionais sem o conhecimento da área de TI. Muitas soluções especializadas são vendidas pelos seus fornecedores diretamente às áreas usuárias. TI, portanto, deve assumir uma postura proativa, não apenas aceitando, mas conduzindo o processo de consumerização nas empresas. É uma mudança de seu modelo mental, de comando e controle para conselheiro e consultor. Uma sugestão: repense seus modelos de governança e compliance, pois eles provavelmente, por terem sido criados para um modelo computacional anterior às nuvens, smartphones e tablets, já estão obsoletos.

Portanto, os CIOs têm muito a fazer. Os sinais de fumaça, indicadores que as mudanças são inevitáveis estão aparecendo em todos os lugares. O ritmo de mudanças está se acelerando de forma visível. O cenário de negócios, em consequência, está cada vez mais complexo e instável.


Como TI está cada vez mais inserida no negócio, podemos até nos arriscar a dizer que não temos mais “TI fazendo parte do negócio”, mas o “próprio negócio é TI”. Os tempos em que existia um setor de TI, isolado, definitivamente já passou. As empresas que ainda estão no estágio de “buscar alinhamento entre TI e o negócio” já perderam o trem. Ele já saiu da estação e elas tem que dar um salto quântico para se reposicionarem. Questão de sobrevivência.

FONTE: CorpTV