quarta-feira, 10 de junho de 2015

Como os telejornais do passado relataram a chegada da Internet e de outras tecnologias do futuro ao Brasil


Autor: Rodrigo Ghedin

Há 20 anos a Internet comercial era lançada no Brasil. Lenta, restrita e com fila de espera, tudo isso para acessar sites e serviços primitivos, essa é uma história que coloca em perspectiva a relatividade do tempo — como duas décadas podem parecer tão pouco e, no mesmo momento, tanto tempo.

Hoje, mais da metade da população brasileira está conectada. Há 20 anos, os 250 primeiros do país, selecionados pela Embratel para o teste piloto, tiveram o privilégio de se conectarem do conforto dos seus lares ou do ambiente corporativo pagando por isso. Antes, segundo um editorial da Folha (que publicou um especial caprichado sobre a data), éramos apenas 50 mil conectados à internet — gente do governo, de universidades e do exército.

Em 2015 a Internet está tão enraizada que passa despercebida. Em alguns países, o acesso à rede já é um direito fundamental. Mesmo aqui, no Brasil, em lugares onde o acesso é estável e a velocidade, boa, só nos damos conta dela quando somos desconectados por algum imprevisto. Essa naturalidade com que lidamos com a Internet se reflete na cobertura da imprensa. Antes, não era assim. Qualquer reportagem sobre Grande Rede Mundial de Computadores™ envolvia termos como “aficionados” e “navegadores,” sem falar no eventual trechinho de Tron, Jogos de Guerra ou qualquer outro filme de ficção científica para ilustrar o ciberespaço.

Movido pela nostalgia desta semana, vasculhei o YouTube em busca das matérias do passado que apontavam para o nosso futuro. Infelizmente não encontrei nada específico sobre aquele 1º de maio de 1995, o que é uma pena — e estranho. A Internet chegou ao Brasil naquele ano, mas foi só no seguinte, em decorrência do Internet World 96, um evento realizado no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, para apresentar ao público as últimas novidades da Internet, que a grande imprensa parece ter dado a devida atenção ao tema.
O compilado de matérias do vídeo acima dá uma boa ideia das grandes novidades da época. Comércio eletrônico parece ter sido a sensação do evento, seguido de perto pela chave de acesso física que, ao encostar num monitor CRT, gerava uma senha temporária para garantir o sigilo de transações online. Num tempo em que Google devia ser só uma vaga ideia na cabeça dos seus criadores, uma das matérias destacou também a nova possibilidade de buscar páginas por palavras-chave, muito mais práticas que os diretórios de então.

Em off, cá entre nós: o que era aquele programa da Silvia Poppovic!?

Animado com o achado acima, procurei outros vídeos antológicos relacionados à tecnologia do telejornalismo brasileiro. Confira, em ordem cronológica:

O computador no Brasil, 1981
Em 1981 cerca de quatro mil computadores funcionavam no Brasil. Segundo Octávio Gennari Neto, então Secretário Especial de Informática de São Paulo, “a população média de São Paulo teria um contato indireto, nem sempre direto, de cerca de 15 a 20 vezes por dia com um computador eletrônico.”

O engenheiro José Roberto Trindade contou, ao repórter, como era legal colocar “receitas de bolo” no computador doméstico e, depois, informar a quantidade de pessoas a serem servidas e o sistema retornar os ingredientes nas porções corretas.

E já nessa época existia um serviço de informações pela linha telefônica através do computador. Fiquei curioso para entender melhor como funcionava.

Caixa eletrônico, 1983
“O século XXI já chegou,” anunciou o âncora ao chamar a matéria sobre a invasão dos computadores nos bancos. Operações remotas, caixa eletrônico, cartões de crédito/débito e atendimento automático eram provas contundentes, para o repórter Alberto Gaspar, de que o ano 2000 havia chegado antes da hora. Mal sabia que, quase três décadas depois, a maioria nós preferiria falar ao telefone com gente de carne e osso em vez de vozes computadorizadas.

No final, o amigo engravatado diz “Isso aí é a era moderna, do computador.” Ao fundo, começa a tocar a música-tema de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Clássico.

A primeira ligação móvel do Brasil, 1990
Um Marcelo Rezende mais jovem e menos alucinado explicou as vantagens do telefone móvel quando esse desembarcou no Brasil. Tudo bem básico hoje, mas entre essas funções, tem uma curiosa: a “não perturbe,” introduzidos (ou reintroduzidos?) apenas recentemente no iOS (2012) e Android (2014). E o modo viva-voz, que garante segurança máxima ao falar dirigindo? Aposto que ninguém usava cinto de segurança também.

A primeira ligação foi feita pelo Secretário Nacional de Comunicações, Joel Marciano Rauber, ao Ministro da Infra-estrutura, Ozires Silva, que estavam no Rio de Janeiro e em São Paulo, respectivamente.

Correio eletrônico, 1990
Pelo correio eletrônico dá para fazer um punhado de coisas, “até arrumar um bom caso de amor” — funcionou com Tom Hanks e Meg Ryan, ora! Fiquei na dúvida se a matéria se referia ao e-mail ou às BBSs. Alguém da época esclarece?

Vírus Michelangelo, 1990
Bons tempos em que vírus tinham data marcada para atacar e podiam ser evitados apenas dando uma folga ao PC no fatídico dia. O Michelangelo foi batizado assim por entrar em ação no dia 6 de março, data de nascimento do grande pintor e escultor italiano do século XVI.

A febre dos video games, 1991
Este Globo Repórter é pérola atrás de pérola, como terem mudado o emprego do Mario da Nintendo (de encanador virou bombeiro) e a espécie do Sonic (de porco espinho virou um gato), ou do moleque que era tão bom que foi contratado por uma revista especializada. Video games eram mais maneiros nos anos 1990!

E como essa indústria mudou de lá pra cá. Na época o Japão era o centro do universo, associar video games a crianças era natural e adulto só jogava em PC, de preferência nos simuladores de voo com gráficos impressionantes — na época, claro. Cora Ronai, que hoje escreve sobre tecnologia n’O Globo, fez uma ponta nesse bloco dos adultos declarando seu amor pelo Pac-Man.

Lançamento do Windows 95, 1995
Os PCs mais populares do Brasil em 1995 custavam R$ 800, o que em valores corrigidos para hoje dá quase R$ 4.300. O Windows 95 prometia uma revolução. “Duas vezes mais veloz,” ele deixava o uso do computador muito mais fácil. Dava para fazer tudo: ouvir música, escrever texto, fazer planilhas de custo e agendar compromissos, tudo ao mesmo tempo em quatro janelas uma ao lado da outra.


E o César Tralli, hein? Há 20 anos cobrindo tecnologia para, em 2015, publicar o print de uma foto no Twitter.

FONTE: CorpTV