terça-feira, 13 de agosto de 2013

A irrefreável disrupção criativa da internet

O que editores, jornalistas, lojistas, comerciantes de commodities e engenheiros ferroviários têm em comum? Essas profissões têm sido o foco de discussões, especialmente porque estão sendo ameaçadas ou, de certa forma, marginalizadas pela inovação digital.

O The Washington Post anunciou, na semana passada, que concordou em vender o icônico jornal e outros antigos ativos de mídia ao fundador da Amazon.com, Jeff Bezos, por U$ 250 milhões. A notícia seguiu a decisão do New York Times de vender o Boston Globe ao proprietário do Boston Red Sox, John Henry, por U$ 70 milhões, o que representa 6% dos U$1,1 bilhão pagos pelo Globe há 20 anos.

Após o anúncio da venda do The Washington Post, a conversas entre os jornalistas eram centradas menos em big data, e-commerce, user interaction ou outras inovações digitais que o fundador da Amazon poderia trazer às tradicionais mídias em declínio, e mais sobre o futuro dos repórteres e editores do jornal e dos padrões jornalísticos.

Bezos não ofereceu nenhuma proposta simplista para reverter o declínio das receitas do Post, mas é muito claro que ele não irá gastar U$ 250 milhões de sua própria fortuna para preservar o status quo. “A internet está transformando quase todos os elementos do modelo de negócio do jornalismo: encurtando ciclos de notícias, erodindo fontes de receita confiáveis ​​e permitindo que novos modelos, alguns com pouco ou nenhum custo, de coleta de notícias”, afirmou Bezos por comunicado. “Não há nenhum mapa e traçar um caminho pela frente não será fácil. Vamos precisar inventar, o que significa que teremos que experimentar.”

Essas duas últimas frases valem para empresas de todos os setores. A destruição criativa da era da informação está se acelerando cada vez mais. O marketing muda, novos meios mais eficientes e digitais de marketing, vendas e distribuição emergem, e os negócios que não se adaptam saem de cena. Eu já vivenciei a disrupção digital (e também a destruição) na pele, e seus efeitos não são agradáveis. Não é possível negá-la, nem evitá-la.

“O software está engolindo o mundo”. É como descreve o fundador da Netscape e do grupo investidor de capital de risco em tecnologia, Marc Andreessen. “Cada vez mais empresas e indústrias importantes estão sendo executadas e entregues por meio software em forma de serviços on-line – seja de filmes, agricultura ou defesa nacional”, Andreessen escreveu no The Wall Street Journal, há dois anos. “Muitos dos vencedores são empresas empreendedoras de tecnologia do Vale do Silício que estão invadindo e derrubando as estruturas estabelecidas pela indústria. Nos próximos 10 anos, espero muito mais indústrias serem desafiadas pelo software, com novas companhias do Vale do Silício promovendo a disrupção na maioria dos casos. ”

No caso do The Washington Post, a disrupção vem de Seattle, onde fica localizada a sede da Amazon, ao invés do Vale do Silício.

Os sindicatos têm tentado diminuir os impactos causados pela disrupção digital e sua destruição criativa. O sindicato dos comunicadores dos Estados Unidos, por exemplo, há muito tempo luta para proteger seus membros, incluindo operadores de telefonia que se tornaram obsoletos e, mais recentemente, agentes de call center cujos trabalhos que se tornaram offshore para que a conectividade internacional ficasse ainda melhor e mais barata.

No setor ferroviário, os dispositivos controle remoto de posicionamento de trens reduziram drasticamente a quantidade de operadores de duas ou três pessoas para apenas uma, apesar de oposição do sindicato. Agora, com um conjunto de sistemas interoperáveis ​​ a ser instalado nos EUA no próximo ano, as concessionárias de ferrovias querem reduzir as tripulações de operações de carga de duas pessoas – um engenheiro e um condutor – para apenas uma. O sistema, chamado de Positive Train Control, é destinado para evitar colisões entre trens e descarrilamentos por excesso de velocidade, mantendo os trens automaticamente dentro de velocidades e limites de distância autorizados. As operadoras esperavam reduzir as tripulações de carga como uma forma de começar a recuperar o investimento de U$ 20 bilhões no programa, mas os sindicatos conseguiram bloquear o projeto até agora. Curiosamente, os acidentes ferroviários fatais que aconteceram no Canadá e na Espanha sugerem falhas relacionadas à automação.

Engenheiros ferroviários, pais e mães donos de lojas, trabalhadores de call center, comerciantes de commodities (e, sim, até mesmo jornalistas) estão passando por um momento de transição. Mas ações judiciais e sindicatos que anseiam para a volta dos bons e velhos tempos não vão parar a marcha do progresso. É hora de olhar para frente, não para trás.

FONTE:CorpTV