quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Sobre as exaptações tecnológicas

Na biologia, existe um termo, “exaptação”, que se refere a uma característica que se desenvolveu em um animal para oferecer uma vantagem em particular e terminou sendo bastante útil para outras coisas para as quais não foi pensada originalmente. Um exemplo claro são as penas, que apareceram primeiro no sinosauropteryx, um dinossauro sem asas, para ajudar a regular sua temperatura e que depois foram utilizadas para voar.

Na tecnologia, as exaptações são muito mais frequentes. Há uma grande quantidade de invenções e ferramentas que foram pensadas com um objetivo e terminaram sendo tremendamente úteis para outras coisas para as quais são tinham sido pensadas em princípio e não tinham nada a ver com seu fim original. Como a Internet, que era um mecanismo de comunicação resistente para testes nucleares e terminou sendo útil para comprar livros online ou para bater papo no Facebook.

Os smartphones também são uma exaptação, porque são o melhor canal que se conhece hoje para por detonadores imediatos no caminho de pessoas motivadas, convertendo-se assim em uma tremenda ferramenta para impactar o comportamento das pessoas.

Para me explicar melhor, falo primeiro sobre BJ Fogg, doutor em Psicologia pela Universidade de Stanford, fundador e diretor do Standford Persuasive Technology Lab. Esse pesquisador dedica-se a estudar o que causa o comportamento do ponto de vista tecnológico, ou seja, o que faz com que nos comportemos e façamos determinadas coisas. Em termos cotidianos, o que faz com que eu faça uma doação, que entre num aplicativo, que o abandone etc.

O modelo de BJ Fogg diz que tudo começa com uma motivação: para fazer uma tarefa, preciso estar motivado. Esse é o primeiro eixo do comportamento. Um segundo eixo é a habilidade para fazer uma tarefa, isto é, se essa tarefa me parece fácil ou difícil de ser feita. Por isso, se eu precisar fazer uma tarefa e se eu não estiver motivado ou se ela parecer difícil, não vou fazê-la. É como doar US$ 10 mil para medir o diâmetro de Netuno. Mas se estou em um supermercado e me pedirem um real para alimentar crianças, é bem mais provável que eu o faça porque é fácil e o fim me interessa.

No entanto, existe ainda um elemento no modelo de BJ Fogg que é muito importante: o detonador que dispara a ação. No exemplo do supermercado, o detonador é a moça do caixa que me perguntou se eu queria fazer a doação.

O modelo completo, então, seria que eu posso fazer coisas porque estou fazendo motivado, tenho a habilidade para fazê-las e houve algum detonador que me levou a fazê-las. A equação resultante é: comportamento = motivação x habilidade x detonador, o B=MAT, por suas siglas em inglês.

Com isso em mente, é lógico pensar que podemos lograr ações ou comportamentos se aumentarmos a motivação das pessoas, tornando as coisas mais fáceis ou colocando mais detonadores. Fogg diz, no entanto, que motivar as pessoas através da tecnologia é muito mais difícil que facilitar as tarefas ou entregar os detonadores adequados.

Como facilitar as tarefas? Simplificando-as em relação a tempo, dinheiro, esforço físico, esforço mental, aceitação social e rotina, embora isso dependa do recurso mais escasso de cada pessoa para que a tarefa lhe pareça mais simples. Por exemplo, para um jovem com tempo livre, será mais simples baixar em seu smartphone um aplicativo gratuito que lhe interesse – embora precise configurá-lo -, enquanto para um executivo é mais interessante pagar por um aplicativo que o ajude a fazer suas atividades com mais rapidez.

Por isso o grande sucesso do iTunes, que simplificou extraordinariamente a compra de músicas ao colocá-las a US$ 1 e organizadas em um só lugar para um público que já estava motivado a adquirir música, mas não o fazia porque era algo ainda muito caro e disperso.

Quanto aos detonadores, é preciso localizar os adequados nos lugares corretos. O Facebook é um exemplo de quem domina essa arte. A quem não chegou um aviso de um amigo que tenha lhe marcado em uma foto? O que você faz nesse momento é entrar para olhar a foto e aproveita para dar uma olhada nas suas solicitações de amizades, seu mural, alguma publicação de um amigo e, por fim, termina passando 45 minutos na rede social.

Para que os detonadores tenham sucesso, eles devem exigir uma pequena ação, fácil de fazer. Depois que se faz uma cadeia de detonadores imediatos e com pequenas ações fáceis, vamos avançando até comportamentos mais complexos. Um detonador imediato é o que permite que eu possa realizar a ação nesse momento, como em nosso exemplo da moça do caixa que falou na doação naquele momento para que eu pudesse dá-la.

Para BJ Fogg, o caminho do sucesso é colocar detonadores imediatos no caminho de gente motivada. Isso é o que os smartphones nos permitem fazer, já que hoje são um dos canais mais efetivos para colocar detonadores imediatos no caminho das pessoas motivadas por três motivos: porque os carregamos sempre, porque desenvolvemos relações emocionais com eles (as pessoas se apegam a seus celulares) e porque servem para muitas coisas, como um canivete suíço.

E por isso são uma exaptação: não servem apenas para fazer uma ligação, embora tenham sido criados originalmente para isso, podem nos ajudar inclusive a adquirir bons comportamentos e criar hábitos.


Como? Com os aplicativos. Se eu quiser correr uma maratona no fim do ano, baixo um aplicativo que me ajude a treinar. Começo aos poucos, saindo para correr vinte minutos no primeiro dia e marcando o quanto corri. Meu smartphone pode me ajudar a manter o registro de como vou avançando, colocar alarmes para controlar o tempo, compartilhar meus avanços com meus amigos ou enviar uma mensagem se ultrapasso uma marca pessoal. Aos poucos, vou criando o hábito de correr, e terei mudado meu comportamento de alguém sedentário para o de uma pessoa que pratica esporte. Criando um bom hábito, terei mudado também minha vida – com a ajuda, claro, de uma pequena exaptação.

FONTE: CorpTV