quarta-feira, 2 de abril de 2014

Como as Pequenas e Médias Empresas (PMEs) podem criar uma boa estratégia digital e adotar o big data e ERP

Autor: Cezar Taurion

Nos EUA, PME ou SMB são empresas de até US$ 1 bilhão e mil funcionários. No Brasil, seu faturamento fica bem abaixo deste valor. Além disso não constituem um grupo homogêneo de empresas. Dependendo do setor de negócios, variáveis como modelo operacional, número de funcionários e faturamento divergem bastante. Bem, arbitrariamente vamos, neste artigo, falar em empresas entre R$ 100 e 500 milhões de faturamento por ano, de qualquer setor de negócios. Só para colocar as ideias no ar.

Uma palestra foi emblemática. Ao palestrar sobre big data, um CIO de uma destas empresa me disse que nem podia pensar no assunto pois estava as voltas com implementação de um ERP que tomaria sua atenção nos próximos dois anos. Meu ponto de instigamento é: porque ser uma escolha de Sofia? Tem que ser “ou”? Por que não “e”? Sim, ERP “e” Big Data. As empresas de médio porte estão também sob pressão da dinâmica acelerada dos mercados, das crescentes exigências dos clientes e das rupturas provocadas pelo mundo hiperconectado. E esperar dois anos para ter sua estratégia digital talvez seja tarde demais… O mercado não espera por ninguém. Então, partindo dessa premissa vamos avaliar o cenário.

O desafio dos CIOs das PME me parece ser maior que os das grandes empresas, pois têm budget reduzido e carência de pessoal capacitado. Muitas vezes não tem acesso direto aos grandes provedores de tecnologia, sendo atendidos por intermediários, nem sempre capacitados a atuarem como advisors em novas tecnologias. A carência de recursos faz com que se ocupem basicamente em manter a operação funcionando adequadamente. Com isso, não conseguem dedicar tempo a explorar as ondas tecnológicas, que, infelizmente para eles, não esperam e já estão quebrando sobre o mercado como um todo, sem distinção se elas são grandes ou PMEs. As PME não estão imunes as mudanças provocadas pela transformação digital. Uma PME vai também enfrentar a demanda por práticas de BYOD, por exemplo. Não tem como escapar desta dinâmica de transformações.

Sendo assim, como enfrentar a situação? Manter o foco no dia a dia garante o hoje, mas vai afetar seu negócio em breve. Os clientes estão em busca de maiores funcionalidades e serviços. Se estes serviços forem encontrados nas grandes, por que continuarão comprando das PMEs?.

Nas palestras vejo que existem mitos que precisam ser quebrados. Um deles por exemplo diz que big data é apenas para grandes empresas, creio que pelo big no nome… Mas você pode ter big data sem big servers explorando a computação em nuvem. Por que não Big data on demand? Mobilidade pode criar vantagens competitivas para as PMEs acelerando suas respostas às demandas dos clientes e criando engajamentos mais sólidos com eles. Cloud deveria ser visto com muito menos receio. Se analisarmos friamente, nos abstraindo de ideias pré-concebidas, vemos que grandes provedores de cloud oferecem data centers muito mais seguros que os que as PMEs têm em casa. A maioria das PMEs não tem funções de CSO (Chief Security Officer), não tem políticas e práticas auditadas de segurança e privacidade, muitas não têm um processo de disaster recovery e seu data center encontra-se em local inseguro. Sua rede também, na maioria das vezes, não recebe prêmios como uma das mais seguras do país… Cloud tem potencial de permitir ao CIO deslocar para terceiros as atividades do dia a dia e focar nas novas tecnologias; e estas, sim, fazem diferença. Um ERP é básico para qualquer empresa. Isto é indiscutível. Mas ele não gera aumento da receita, não obtém um novo cliente. Um app inteligente, suportado por informações coletadas e analisadas (big data) pode fazer diferença.

Uma PME sofre muita pressão para ser mais eficiente, tornar seus funcionários mais produtivos e ter um relacionamento mais consistente com seus clientes e ecossistema. As ondas tecnológicas como cloud, big data, mobilidade e social ajudam muito nisso. Com Big Data e analytics as PMEs podem identificar quem são seus melhores clientes. Podem otimizar sua dinâmica de preços e conquistar novos clientes. Curioso, que em um dos debates um CIO de uma PME afirmou que já faz isso, mas na conversa que se seguiu acabamos concordando que o que ele produz é um conjunto de relatórios sobre a situação passada, mas de pouca ajuda real na tomada de decisões. O cenário futuro de negócios nem sempre tem a ver com o cenário passado. Muitas variáveis econômicas que vão interferir no negócio deste ano não estão nas planilhas do ano passado….

Voltando à cloud. Uma PME tem que usar tecnologia de forma bem eficiente, pois está sempre as voltas com pressão por redução de custos. Muitas vezes seu dispêndio com equipamentos é relativamente maior que nas grandes, além de, por vezes, não conseguirem os descontos que estas obtém de acordo com o volume comprado. Cloud permite que o CIO passe a exercer um papel de orquestrador da TI, e não de seu operador. Concentra sua atenção nas informações e processos de negócios e não em servidores e banco de dados. Torna mais eficiente a utilização dos seus escassos recursos humanos e budgets. Cloud permite que uma PME praticamente nulifique a diferença em termos de potencial de capacidade computacional com relação as grandes empresas.

Trocando Capex por Opex e usando capacidade sob demanda, a PME pode dispor de recursos antes fora de seu alcance. Possibilita também trocar capacitações voltadas a suporte operacional, como ficar mudando versões de sistemas operacionais (que passam a ser função dos provedores de nuvem e que você não nem se preocupa mais), que não agregam valor ao resultado da operação, por outras que agregam realmente valor compreendendo e implementando soluções inovadoras para o negócio. Este é aspecto bem interessante. Nas minhas várias palestras faço eventualmente pesquisas informais e identifiquei (claro que não é um suvery acadêmico) que nas PMEs o predomínio das capacitações é essencialmente técnico. A maioria dos seus profissionais se engajam quase que todo o tempo com infra e questões técnicas, com poucas capacitações de negócio. Encontramos geralmente sysadmins, gerentes de rede, suporte de banco de dados, desenvolvedores e raríssimos analistas de negócios e arquitetos de soluções. Um claro indício de uma TI basicamente operacional.


Este é o tipping point do CIO de uma PME. Se ele quiser começar a ser visto como um verdadeiro C-level, não apenas no título, mas no reconhecimento formal pela organização, tem que sair da zona de conforto e se aproximar mais e mais do negócio. Cada ação a ser efetuada tem que ser contributiva e quantificada em relação ao resultado do negócio. Deixar de lado tempo e recursos que ele dedica hoje a suportar infraestrutura e se dedicar aos projetos críticos ao negócio. Entender que projetos de TI não são projetos de tecnologia, mas de melhoria e inovação de negócios. Deixar de lado questões como virtualização e upgrades dos sistemas operacionais e dedicar seu tempo a melhorar a supply chain e criar novos meios de engajamento com os clientes. Desenhar a estratégia digital para sua empresa, essencial tanto para as grandes como para as PMEs. Aí sim, o CIO passa a ser um C-level de fato.

FONTE: CorpTV